quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Gap

Não sei qual é a opinião dos adolescentes de hoje, relativamente à leitura. Os da minha família respondem-me categoricamente que não gostam de ler e que eu sou uma pessoa doente- por ter duas paredes carregadas de livros e mais uns quantos no sotão enfaixados que nem múmias- que ler é uma perda de tempo e que gasto fortunas em papel, quando existem gadgets "ma-ra-vi-lho-sos".
É certo que os Planos de Leitura do Ministério de Educação não são empolgantes (por exemplo, nos Estados Unidos, "A vida de Pi" é de leitura obrigatória e nós por cá temos a Barca do Inferno, com peças de teatro incluídas.), mas há bibliotecas, caramba.
Quantos destes jovens-que-são-só-cabeça-e-pouco-neurónio saberão ou quererão saber quem é o Guardador de Rebanhos, quem escreveu o anúncio "Primeiro estranha-se, depois entranha-se", quem escreveu livros juvenis, só porque achava que os existentes infantilizavam demasiado esta classe etária e inventou florestas com cavaleiros nórdicos e duendes?
Quantos destes jovens saberão antever a perfeição de uma obra lendo o primeiro parágrafo e perceber que valeu a pena o rol de Aurelianos, só pelas borboletas amarelas?

Estas coisas apoquentam-me.

2 comentários:

Pulha Garcia disse...

"(por exemplo, nos Estados Unidos, "A vida de Pi" é de leitura obrigatória e nós por cá temos a Barca do Inferno, com peças de teatro incluídas.)" muito bem visto. Concordo. Se as pessoas só são forçadas a ler livros - desculpa-me a franqueza - de merda como é que podem ganhar gosto pela literatura? Eu leio muito, toda a vi li muito, mas acho o Auto da Barca do Inferno uma seca, sem qualquer interesse (mesmo histórico).

Em compensação, também tenho a dizer que já fui forçado a ler livros que vim a adorar. O "Rosinha, minha canoa" e, em Francês, o "Silence de la mer", por exemplo.

Éme Ponto disse...

Olá Pulha,

Sinceramente, não gostei mesmo nada das minhas leituras obrigatórias, à exceção do Pessoa e da Sophia. Até hoje e a título de exemplo, só li 14 páginas do Memorial do Convento. porque me irrita a falta de pontuação e Miguel Torga, seja que livro for.
A questão aqui é que me faz mesmo confusão que as pessoas não só não gostem de ler, como não incentivem o acto aos jovens que têm a seu cargo. Não é só uma questão cultural, é um requisito obrigatório para se saber escrever.
Que me digam que não lhes apetece agarrar um Guerra e Paz ou um Siddhartha e que preferem antes um Eclipse, ainda é como o outro e não me choca. Agora recusar de todo, é de contrair as entranhas e temer pelo futuro em que estes jovens imberbes estarão a comandar o barco.

(Obrigada pelo teu comentário. :) Aviso já que não se aprende nada aqui, que eu cá não gosto de defraudar expetativas. )